10 coisas que escritores não sabem sobre as florestas – parte 1

sábado, 6 de janeiro de 2018



Quem escreve (ou lê) fantasia com frequência está em cenas com florestas/bosques e afins. Como uma boa pessoa nascida e crescida em cidade grande enorme, caótica não tenho muita zero, nenhuminha propriedade para escrever uma cena dessas sem cometer alguns erros atrozes e sem sair do lugar comum.

Por isso fiquei ENCANTADA quando vi o artigo 10 Things Writers Don’t Know About The Woods (10 coisas que escritores não sabem sobre as florestas) no blog do Dan Koboldt. E ele foi super bacana e me autorizou a traduzir para o português. (Thank you so much!). 

Espero que vocês gostem e achem tão útil e inspirador quanto eu achei. =)

P.S. Todas as imagens são do post dele também.



10 coisas que escritores não sabem sobre as florestas
É difícil contar quantos livros eu já li que mostram personagens na floresta. Às vezes eles estão fugindo, às vezes perseguindo, às vezes apenas procurando alguma coisa para comer.

Como alguém que passa bastante tempo na mata, eu preciso dizer que a maioria dos autores entende errado. Aqui estão dez realidades sobre a floresta que todo autor deveria saber.

1. Uma floresta tem mais do que apenas árvores
Quando escrevem sobre florestas, muitos autores focam em apenas uma coisa: o tipo e a quantidade de árvores. Em uma floresta decídua madura, geralmente há pelo menos quatro camadas de plantas:

- As copas mais altas, formadas por árvores altas, que começam 20 ou 30 pés [em torno de 6 a 9 metros] acima da cabeça e chegam a bem mais que isso

- Abaixo desse, com frequência, há uma segunda copa com mudas e árvores menores como cornisos e cedros.
As camadas da floresta

- A terceira camada, sub-bosque, com arbustos e moitas, como madressilva.

- Por último tem a cobertura do solo com as ervas da floresta: ervas daninhas, flores silvestres e outras coisas que crescem rápido na primavera antes que as árvores decíduas recuperem suas folhas.

Tudo isso tem de ser negociado por alguém que está no chão. O que me leva ao próximo ponto.


2. Correr geralmente não é possível
Nada me joga fora de um livro mais rápido do que um personagem correndo (ou pior, galopando) com velocidade total através de uma floresta densa. Se você apenas tivesse os grandes troncos das árvores para se preocupar, tudo bem. É o sub-bosque que é o problema: denso, com mato na altura dos ombros é quase impossível de atravessar rápido. E se é um caminho de floresta perene, esqueça. É difícil até de andar através delas, porque elas podem crescer tão perto umas das outras com ramos que descem até quase o chão.

Correr ou montar um cavalo em grande velocidade é pedir por um tornozelo quebrado. Buracos, tocos, toras caídas, todos se escondem abaixo de uma enganosa camada plácida de folhas caídas. Eu admito que há uma cena em The Rogue Retrieval [livro do autor do blog] onde o personagem principal corre com o cavalo através da mata, mas é em uma trilha limpa (e ele está meio que sendo perseguido por um dragão).

3. É difícil se mover em silêncio

Floresta no início do outono
Tendo seguido vários animais na floresta, eu posso dizer que a maioria deles é bem quieta. Eles têm de ser, para poder sobreviver. A coisa mais barulhenta em uma floresta, de longe, é um ser humano. Muitos caçadores infiltram-se na floresta um bom tempo antes de os animais começarem a circular, e encontram um lugar para se sentar muito, muito parados. Nós não ficamos andando por aí, porque é quase impossível se esgueirar nesse jogo.

O que significa que, para qualquer tipo de perseguição na floresta, uma pessoa correndo pela mata seria fácil de ouvir chegando a uma longa distância e fácil de ser perseguida também. Existe um momento quando uma pessoa pode se mover no meio da floresta tanto de forma silenciosa quanto a uma velocidade decente: quando o solo está molhado, seja por um orvalho pesado ou por uma chuva recente. Você ainda precisa evitar pisar em galhos e chutar ramos, mas fora isso você consegue ser discreto.

4. Visibilidade geralmente é ruim
Floresta no verão
A visibilidade na floresta depende de alguns fatores, o mais importante deles é a estação. A visibilidade é pior no final da primavera e verão. Por causa da vegetação das duas camadas mais baixas, você geralmente não consegue ver mais do que 20-30 jardas [em torno de 18-28 metros] em qualquer direção. Inclusive, alguém no chão geralmente não consegue ver o céu, as nuvens ou as estrelas à noite por causa das copas mais altas. Então, não, aquela história de se guiar pelas estrelas não vai acontecer em uma floresta densa.

Floresta no inverno

Visibilidade é surpreendentemente diferente depois que as folhas das árvores caem. A floresta se torna um lugar muito diferente. Você pode ser capaz de enxergar 50 ou 100 jardas [45-90 metros], dependendo do terreno. Neve no chão também faz diferença: o contraste faz animais e pessoas se destacarem a distância, especialmente se estiverem se movendo.

Ironicamente, melhor visibilidade nem sempre ajuda o caçador, porque funciona tão bem quanto para a presa.

5. Se perder é fácil
É muito, muito fácil ficar desorientado na floresta. Aqui estão algumas das razões:

Copas mais altas no verão
- Você não anda em linha reta. Existem grupos densos de arbustos e árvores caídas para se dar a volta, cumes para atravessar e trilhas para seguir.

- Você não pode contar com o sol ou a lua, porque eles geralmente são difíceis de ver pelas copas das árvores ou quando está nublado.

- Mais para dentro da floresta, tudo parece a mesma coisa.  Você acha que sabe onde está, mas pode estar errado.
Mesmo quando estou caçando em uma área que conheço bem, eu nunca entro entre as árvores sem meu GPS e um jogo extra de baterias para eles.

6. A melhor forma de se esconder
Humanos (assim como predadores e muitas espécies de pássaros) têm ótima “visão perceptiva”, o que significa que podem facilmente perceber movimento.

Bosques exuberantes no verão
Portanto, a melhor forma de alguém ou alguma coisa se esconder na floresta é ficar absolutamente quieto. Movimento, mesmo pegar um mosquito (que são vorazes na floresta, aliás), vai te entregar.

Usar as cores certas também ajuda. Azul, vermelho, e laranja brilhante são cores que você não vê com frequência na floresta, então vão se destacar como letreiros de neon. Um caçador todo camuflado, sentado quieto com as costas em algo que disfarce sua forma (uma árvore larga, por exemplo) é virtualmente invisível. Esse mesmo caçador andando de volta para seu veículo é fácil de ver.

Se eu estivesse fugindo de alguém na floresta, eu iria para o chão o mais rápido possível e deitaria quieto.

7. A verdade sobre rastrear
A ideia de “rastrear pessoas” na floresta na literatura de fantasia sempre me incomodou. Você sabe, aquele velho “Ah-há! Esse galho está quebrado aqui, então eles foram nessa direção.” Na maioria das vezes, a não ser que alguém esteja na sua vista, você vai ter pouca ideia de para qual lado eles foram. O chão é duro e cheio de folhas caídas. Vinte caras poderia ter andado pelo mesmo trecho de floresta meia hora antes de mim, e eu não teria como dizer.

A neve oferece um contraste melhor
Seguir alguém numa trilha vai ajudar, porém, desde que a trilha tenha se tornado em lama que mantém uma pegada. Outras coisas que poderia ajudar:

- Se a presa estiver sangrando. Sangue se destaca no chão da floresta e cai em um padrão que costuma indicar direção.

- Se houver neve no chão. Nada releva um rastro melhor do que meia polegada [cerca de 1 centímetro] ou mais de neve no chão. Não só os rastros são visíveis, como você pode identificar os rastros velhos dos novos.

- As duas coisas acima combinadas – rastrear alguém sangrando em uma floresta coberta de neve – representa um cenário ideal. É claro, uma presa inteligente pode pensar em formas de usar isso contra seus perseguidores.

Eu já rastreei um cervo machucado na floresta em algumas ocasiões. Quando fogem de perigo, animais (inclusive humanos) têm algumas tendências. Preferem fugir para áreas mais baixas e pelo caminho de menor dificuldade. Eles correm principalmente em uma direção. E evitam áreas abertas sempre que possível.

8. Espere barulhos estranhos
Frequentemente quando estou sentado na floresta, não tem muito para se olhar (mesmo com meus binóculos de caça), então uso meus ouvidos no lugar. O som geralmente atravessa mais longe do que consigo ver. Há barulhos familiares: corvos, pica-paus, grilos e esse tipo de coisa. E deixe-me contar a você, eu já ouvi alguns barulhos estranhos. Um que eu ouço uma vez ou outra é um "guincho meio rangido"; suspeito que seja algum tipo de pássaro. Outros barulhos são menos comuns, porém mais intrigantes.

Aqui está um bom exemplo. Uma vez caçando em uma ilha cheia de árvores ao longo do rio, eu ouvi esse barulho estridente. Isso acontecia a cada 15 ou 20 minutos. Quase soava como foles, mas eu estava a 5 milhas de qualquer civilização. Eu cheguei em um trecho aberto, e vi o que era: um bando de pequenos pássaros, voando juntos. Eu acho que eram cantadeiras/marrecos, eles voavam como aviões de acrobacia. O som estridente acontecia quando todos eles faziam uma virada brusca ao mesmo tempo. Eu nunca teria imaginado que era isso nem em cem anos.

Outros sons estranhos que ouvi permanecem mistérios. Uma vez eu ouvi o que parecia um bebê chorando em longos e queixosos lamentos. Esse ainda me assombra.

9. A floresta é linda, se você gosta desse tipo de coisa
Apesar de todos os insetos o perigo de tropeçar, e espinheiros (e hera venenosa!), a floresta tende a ser um lugar de paz. É possível que eu passe oito horas sem ver outra pessoa. Longe da pressa e do barulho da vida moderna. O tempo passa mais devagar. O pôr do sol parece durar mais tempo. A tranquilidade da floresta densa, o suspiro do vento no topo através árvores, é algo que nós, pessoas que gostam de ficar ao ar livre, apreciamos.

10. Existem exceções para os desafios da floresta
Obviamente, nenhum desses problemas (furtividade, visibilidade e chance de se perder) se aplicam a elfos. Ou aos Dúnedain [da obra de Tolkien].


O que acharam desse artigo? Já conheciam todas essas coisas, ou assim como eu não manjam muito de florestas?



P.S. Nos comentários dessa postagem tem tantas informações interessantes a mais, que pretendo fazer um apanhado geral em outro post (só não consigo prometer quando, porque meus horários estão medonhos...).


P.P.S. Para quem quiser ver o artigo original, segue o link mais uma vez: 10 Things Writers Don’t Know About The Woods

Veja os outros posts dessa série:
10 coisas que escritores não sabem sobre as florestas – parte 2
10 coisas que escritores não sabem sobre as florestas – parte 3



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