Entrevista: Andreia Evaristo, autora de Allegra: Antes do Play

segunda-feira, 10 de setembro de 2018


Terminando a série sobre Allegra: Antes do Play (releitura de Cinderela), a autora Andreia Evaristo conseguiu um tempinho entre suas tarefas de super-professora, cronista do jornal A Notícia e membro da Academia de Letras de Joinville para me aturar e matar minha curiosidade. =D

No Escrevendo Asas, falo principalmente de livros que são releituras de Contos de Fadas. Mais curiosidades dos livros, como foi o processo de escrita do que resenhas mesmo. Então como veio a ideia de fazer a releitura de um conto de fadas? E por que Cinderela?

Quando eu escrevi Em pele de cordeiro, eu fiz algumas referências ao Chapeuzinho Vermelho no livro. São referências sutis, porque não é um livro juvenil, e a temática tem tudo a ver com o tema do livro (abuso contra mulheres). Ao terminá-lo, pensei que seria interessante construir uma história com referências a outro conto de fadas. Como eu já tinha uma ideia de personagem na cabeça (Allegra), conversando com meu marido, começamos a pensar qual conto de fadas ficaria interessante. Cinderela foi o que mais se encaixou (sem falar que Cinderela encanta garotas românticas pelo mundo afora, através dos tempos, né?).

Eu adorei que os nomes dos capítulos fossem versos de músicas de um cantor que tem tudo a ver com a personagem principal. Além de original, a dedicação de procurar cada verso foi lindo. Você também é fã de Elvis Presley? 

Sou fã de Elvis, como sou fã de música boa - costumo dizer que música boa é atemporal. Mas não sou tão fã como a Allegra. Na verdade, como eu queria versos que combinassem com o que acontece nos capítulos, precisei ir além do que eu conhecia do cantor para poder fazer uma amarração certinha.

Em algum momento, procurando versos de Elvis que encaixavam no capítulo você chegou a alterar alguma coisa na trama para encaixar no verso, ou o verso te deu uma ideia nova? 

Não cheguei a mudar nada na história por causa das músicas do Elvis, não. Quando eu comecei a escrever Allegra, o roteiro da história estava 100% completo, ou seja, eu já sabia tudo o que ia acontecer, cena após cena.

Logo, foi um trabalhão encontrar os versos que se encaixassem com as ideias dos capítulos e que não entregassem o jogo antes da hora (sou do time que odeia spoilers e jamais faria com meus leitores).

Meu repertório de Elvis já era bem maior que a média das pessoas, não confesso que eu aprendi muito mais quando comecei a escolher os trechos que serviriam de título para os capítulos. Há músicas que estão ali que desconhecia quando comecei a escrever o livro.

Há! Sensacional! Também sou do team no spoilers!

Pin up - 1944 
Como foi o processo de pesquisa para esse livro? Sobre o que você precisou procurar? Teve alguma informação que você queria ter usado, mas acabou deixando de fora por não se encaixar mais na história ou algo assim?

Eu pesquisei as letras das músicas do Elvis para os títulos dos capítulos. Não precisei pesquisar muito sobre os youtubers e esse universo da internet, porque eu mesma estou inserida neste contexto desde 2004. No passado, sim, já pesquisei muito sobre como usar os analytics a favor do meu blog, já convivi com muitas blogueiras de moda e beleza (e vi as vantagens e desvantagens desse mundo, quem leva o assunto a sério e quem está só atrás de "entrar na onda" e repetir coisas sem pesquisar muito...). Então, esse universo não era novo para mim. Além disso, para a construção de personagem das twins, usei meus próprios conhecimentos de moda e visagismo (dos cursos que já fiz na área).

Uma leitora disse que sentiu falta de explorar um pouco mais a questão da transição do pensamento da Allegra com relação ao mundo virtual. Eu acho que poderia, mesmo, ter explorado mais este aspecto (não posso falar muito porque não quero dar spoiler - hahahah).

Eu adoro olhar imagens para ter ideias, falei um pouco sobre isso no Escrevendo Asas já. Teve alguma imagem de pin up (ou qualquer outra imagem) que você usou para se inspirar nos figurinos de Allegra? Ou para qualquer outra cena?

Quando eu tinha um blog de moda, uma das blogueiras da minha cidade, minha amiga, se vestia como uma pin-up. Ela não era gorda, como Allegra, mas os figurinos da Allegra se inspiram nela e em seu estilo. Ela minha amiga era tão autêntica, tão ligada ao modo de se vestir das pin-ups que até a lingerie que usava era típica dos anos 50. Eu achava o máximo.

Além disso, eu olhei imagens de garotas gordas que gostam de moda pela internet. Encontrei, inclusive, uma delas que, na minha imaginação, era a cara da Allegra - mas prefiro manter a identidade dela em segredo, até porque um dos baratos da literatura é justamente poder imaginar como são os personagens, não é mesmo?


De onde veio o nome Allegra para Cinderela?

O primeiro nome pensando para Allegra foi Elisabeth, como a rainha. Achei que tinha tudo a ver com uma personagem inspirada numa princesa. Mas, depois, achei que era um nome não muito marcante. Para ser bem sincera, eu não lembro exatamente como o nome me veio à mente, mas eu costumo olhar sites de significados de nome quando estou escolhendo. O que eu me lembro bem foi que, uma vez escolhido o nome Allegra, estava num restaurante e vi uma cena de Hitch - conselheiro amoroso e a personagem de Amber Valleta se chama Allegra Cole. Acho que foi um sinal de que as coisas estavam se encaixando.


Sucesso! Mesmo antes de ler o livro, já sabia que você era professora, então, confesso, quando cheguei no trecho 
“Sei que não. Mas, já diz minha professora de Linguística, a cultura de um povo se faz pela língua. Logo, precisamos romper com algumas amarras.”
fiquei me perguntando: essa professora por acaso é você, Andreia?

Calendário Pepsi - 1950 
Na verdade, não. Minha professora de Linguística da faculdade de Letras dizia isso. Foi com ela que eu aprendi. Claro, eu concordo com ela, acredito nisso e sempre que o assunto surge, eu repito essa fala. Somos linguagem. Somos comunicação. E o que une uma nação é (não se limitando a) sua língua. Entendo todo o processo de transformação pelo qual uma língua passa, sei que ela é um organismo vivo, em constante evolução, mas sei também que alguns avanços precisam ser deliberadamente atrasados ou corremos o risco de perder nossa identidade.

Se pensarmos em Israel, eram um povo sem país, mas conseguiram se manter uma nação em virtude de dois fatores: sua fé e sua língua. Ou seja, olha a importância que a língua tem para a construção da identidade cultural de uma nação.

Da mesma forma, pequenas mudanças nas palavras podem ajudar a construir mudanças de comportamentos. Eu acredito nisso.

Hum... há alguma chance de vermos Allegra (e Orfeu) de novo? (Será? Será?)

Os leitores me pedem muito um livro da Verônica. Se ele realmente vier a ser escrito, penso que veremos Allegra e Orfeu juntinhos novamente, mas, desta vez, como coadjuvantes na aventura de Verônica.

Há planos para uma nova releitura de contos de fada? Algum em mente?

Planos eu sempre tenho. Adoro contos de fadas, acho que eles têm uma carga emocional que é transferida de geração em geração. Mas só posso dizer que o projeto que estou trabalhando no momento não possui esse intertexto (infelizmente). Mas Em pele de cordeiro vai ser lançado em versão física em 2018 - e faz referência ao Chapeuzinho Vermelho. Não é tão direta quanto Allegra - Cinderela, mas não deixa de ser uma ligação com os contos de fadas.

Andreia, muito obrigada pela ENORME paciência de responder minhas perguntas. 

Vida longa a Allegra: Antes do Play! =D

Veja outros posts da série:



P.S. As imagens dessa postagem vieram de:
- Foto Andreia Evaristo 
- Pin up 1944
- Calendário 1950 Pepsi
- Elvis Presley




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2 comentários:

  1. Anna, quem agradece o carinhi sou eu. Foi um prazer. ❤
    Adorei a entrevista. Você conseguiu fugir dos clichês das perguntas que sempre me fazem (arrasou!).
    Sucesso pra você, gatona. 🍀🍀🍀

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